Acabou! Para finalizar, o FAQ da volta ao mundo

LISBOA – Não vou mentir. Acordei hoje com um grande sorriso na cara, feliz da vida porque a nossa volta ao mundo finalmente acabou. Me parece que uma das melhores partes dessa viagem vai ser a volta. Ou melhor, a volta é toda uma nova viagem. É agora que vamos poder nos comparar a nós mesmos, assimilar tudo, refazer a aventura infinitas vezes na memória sem ter de passar pelos perrengues e sem ter de gastar um tostão. Parimos uma volta ao mundo. Ueba!

Para comemorar, e para preparar nossa chegada ao Brasil, fizemos uma lista de perguntas frequentes que ouvimos de amigos e desconhecidos que cruzaram nosso caminho. As perguntas são, em geral, as mesmas, com variações do mesmo tom. As respostas são um ponto de partida para nossa próxima conversa e podem nos ajudar a aprofundar cada ponto de interesse, sem termos de passar pelas perguntas básicas toda vez. 🙂

Pergunta: Para onde vocês foram?

Resposta: EUA – Miami, Orlando, Nova Orleans, Filadélfia, Nova York, Chicago, Grand Cannyon, Los Angeles, Long Beach, Santa Monica, San Diego, Havaí (Honolulu, Waikiki, Hilo e Volcano) e Guam (uma base militar dos EUA na Micronésia).

Japão – Yokohama, Tokyo, Nara, Osaka, Yumura, Tottori, Senday, Okinawa (Taketomi e Iriomote).

China – Pequim.

Austrália – Gold Coast, Cairns e Sydney.

Nova Zelândia – Christchurch, Banks Peninsula, Oamaru, Queenstown, Wanaka, Mt. Aspiring National Park, Geleira Franz Josef, Pancake Rocks, Abel Tasman National Park e Kaikoura.

Indonésia – Bali (Seminyak, Ubud e Sanur), Gili Meno e Kuta Lombok.

Malásia – Johor Bahru e Kuala Lumpur.

Singapura – Singapura.

Vietnã – Hanoi, Dong Hoi, Hoi An e Saigon (Ho Chi Min).

Camboja – Phnom Penh, Siem Reap.

Tailândia – Bangkok e Koh Tao.

Índia – Rajastão (Pushkar, Udaipur, Jaipur), Nova Délhi, Agra, Rishikesh.

Nepal – Kamandu, Pokhara e Annapurna (Hilamaia).

Iran – Teerã, Isfahan, Yazd, Shiraz e Lar (perto do Golfo Pérsico).

Libano – Beirute, Byblos, Harissa, Saida, Baalbek (perto da Síria), Qana (perto de Israel) e Mlita.

Egito – Cairo, Sharm El-Sheik e Taba.

Israel – Eilat, Jerusalém e Tel Aviv.

Itália – Roma, Lucca, Piza, Florença, Veneza, Verona e Milão

Alemanha: Berlim

Holanda: Amsterdã, Haia, Leiden e Delft

Espanha: Barcelona, Valência, Madri, Cáceres, Córdoba e Sevilha

Portugal: Lisboa (Belém, Cascais) e Porto
Pergunta: Vocês foram para ________?! (Preencha a lacuna com qualquer lugar de sua preferência que não tenha sido citado acima. Por exemplo, “Paris”)

Resposta: Não.
Pergunta: Qual lugar vocês mais gostaram?

Resposta: Decidimos que a nossa resposta oficial seria Nova Zelândia, um país lindo, todo preparado para mochileiros, e que não custa tão caro para quem sabe economizar. Mas, a resposta mais honesta seria algo bem clichê como “cada lugar tem algo de especial”.

Pergunta: Qual lugar vocês menos gostaram?

Resposta: Esse lugar não existe.

Pergunta: Quanto tempo vocês ficaram viajando?

Resposta: 330 dias. Era para ser um ano, mas, eliminamos o último mês, quando viajaríamos pela África, porque estávamos já cansados.
Pergunta: Quanto vocês gastaram?

Resposta: US$ 26.087,70 cada (Aéreo: US$ 7.865,01; Vistos: US$ 635; Seguro: US$ 1.406; Hospedagem + alimentação + lazer + transporte: US$ 16.181,69). Como trocamos o dólar a uma cotação de R$ 2,30, nossa viagem ficou em R$ 60 mil cada.

Pergunta: Como vocês pagaram por isso?

Resposta: O Bernardo usou o dinheiro que ele estava economizando para comprar um carro ou dar entrada num apartamento. Eu usei a herança que minha avó japonesa deixou, vendi meu carro, móveis e eletrodomésticos. Também aluguei meu apartamento para termos uma renda mensal, já que nós dois pedimos demissão.

Pergunta: O que vocês vão fazer agora?

Resposta: Vamos achar emprego, uma casa e nos casar. Em Brasília.

Pergunta: Por que Brasília?

Resposta: Porque queremos morar no Brasil, mas o Bernardo não quer morar em São Paulo e nem voltar para Belo Horizonte. Eu quero estar perto dos meus avós, que moram em Brasília. Para a carreira de jornalista, Brasília pode ser bem interessante também. De qualquer forma, a cidade não é importante. No fim do dia, lar é qualquer lugar onde estivermos juntos.

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Aos 60, puxando mala em calçada de pedra portuguesa com certeza 

LISBOA – A mãe do Bernardo, Rosane, estreou sua sexagésima década de vida fazendo nada menos do que seu primeiro mochilão pela Europa. Nos aguentou durante um mês pingando de cidade em cidade pela Alemanha, Holanda, Espanha e Portugal, num ritmo alucinado de 2 dias em cada cidade. Dormiu em beliche de quarto coletivo no albergue da juventude, comeu no bandejão do refeitório, varou toda a madrugada num busão. Em cada novo lugar, caminhou uns 10 ou 15 quilômetros, sob um sol de até 40 graus, parando só para comer. 

O teste final de Rosane foi aqui em Portugal. Depois de passar a noite em claro no ônibus que nos levou de Sevilha, na Espanha, até Lisboa, descemos na semana passada na rodoviária Oriente, na capital portuguesa, onde o chão é todo feito de pedras de calcário, brancas e pretas, as mais tradicionais do país. São as mesmas pedras que montam o calçadão de Copacabana e que há uns anos cobriam com mosaicos as calçadas da Avenida Paulista. 

Em São Paulo, uma reforma tirou aquele monte de pedra da maior parte da via para dar lugar ao concreto, que facilita a vida de gente com malas de rodinha, por exemplo, como a mala que Rosane arrastou em Lisboa. O concreto é bom para skatistas e patinadores, e para a prefeitura, que não tem que ficar catando as pedras soltas por aí. Na Paulista, mantiveram as pedrinhas apenas em frente aos pontos tradicionais, como o Conjunto Nacional e o Parque Trianon, na altura do Masp. Achei bem boa a reforma.

Nos prédios onde eu cresci, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, os pátios também eram feitos com as mesmas pedras portuguesas. Ou seja, brinquei praticamente todos os dias da minha infância esfolando o joelho numa calçada portuguesa herdada pelos nossos colonizadores. Assim como na Paulista, o piso do pátio foi reformado e as crianças agora esfolam seus joelhos no concreto.

Aqui, por enquanto, ainda é necessário arrastar a mala de rodinha – ou o carrinho de bebê ou a cadeira de rodas – no piso irregular, mesmo na rodoviária. A tarefa requer força e persistência. Não é para qualquer um. E não é qualquer sogra que aguenta o tranco. Tinha de ser a minha. Testada e aprovada, Rosaninha foi embora hoje para o Brasil com o diploma de mochileira bem guardado na sua mala de rodinha.

  

Uma vez flamenco, flamenco até morrer

SEVILHA – Passamos nossa última noite na Espanha vendo o que os espanhóis nasceram para fazer: drama. Para alguém que nunca foi mais do que moderadamente interessada na cultura hispânica, o básico e turístico show de flamenco foi arrebatador. Chegamos os três atrasados, achamos cadeiras de canto, atrás das cabeças alheias, que tapavam boa parte da visão. A dançarina subiu ao palco com um decote a la Penélope Cruz num filme do Almodóvar, olhando fixamente para o nada, com a testa franzida, como se estivesse prestes a esfaquear um touro. Se ela não tivesse rugas entre as sobrancelhas, não seria tão bonita. Acho que me apaixonei.

O flamenco é a tourada da sedução – é uma pieguice caricatural, mesmo, mas muito bem colocada. São as veias abertas sem o sangue. Flamenco é tão tourada que um homem na plateia, muito apropriado, gritou “olé” em vez de “bravo”, ao final do solo da nossa musa. Estávamos todos apaixonados por ela. E pelo dançarino. E pelos músicos também. Eram todos incríveis. O cantor tinha toda a escala musical nas palmas das mãos, num ritmo ora alucinado ora melancólico, mas sempre de acordo com a batida do violeiro e com as tamancas e as castanholas dos dançarinos. Tipo Yamandú Costa e Paulo Moura tocando música cubana, só que com o dobro de energia.

Num mundo paralelo, meus ouvidos começaram a escutar as orações que ouvíamos cinco vezes ao dia nos países islâmicos por onde passamos. Enlouqueci, pensei. Só que não. Com Bernardo aconteceu o mesmo. E ele está longe de ser louco. Há algo de muito parecido entre a oração dos muçulmanos e o flamenco. Sendo o flamenco, claro, muito mais palatável. Sei que, lá longe no passado, houve mesmo um intenso intercâmbio cultural entre árabes e Penélope Cruzes da vida. Resultado é que a arte islâmica está por toda a Espanha, especialmente aqui no sul do país.

Em Sevilha, fomos a uma exposição de azulejos antigos e parecia que estávamos diante de tapetes árabes pendurados como quadros nas paredes. Os desenhos geométricos são praticamente os mesmos. Só que em vez de fazer na tecelagem, fizeram na cerâmica, um material bem mais fresquinho. Muito espertos. Aqui faz um calor do cão. Ontem, os termômetros nas ruas marcavam 40 graus, sendo que, só um detalhe, ainda estamos na primavera. Quando o verão chegar, os espanhóis derreterão como os relógios de Salvador Dalí. Aliás, pra mim, o surrealismo está explicado.

Os azulejos acabaram se tornando uma indústria tradicional espanhola. Os mais antigos, um mais lindo que o outro, são vendidos a 20 euros cada. Fomos atrás do preço porque catamos no lixo cinco azulejos maravilhosos e inteiros. Para proteger a integridade máscula de Bernardo, devo esclarecer que por “nós” quero dizer eu e Rosane. Em Valência, nós, damas de muito respeito, vasculhamos uma caçamba de entulhos estacionada do outro lado da rua, onde um apartamento velho estava em reforma. Catamos apenas cinco por uma questão de peso e espaço nas malas. A vontade era de levar a caçamba toda para o Brasil, com todos os azulejos, mesmo os quebrados, e reproduzir em casa os mosaicos que Gaudí espalhou por Barcelona.

Hoje termina nossa passagem pela Espanha depois de quase duas semanas. Levo os azulejos nas costas e o flamenco no coração. Para manter a postura dramática que exige o momento, como todos os momentos, segue o resto do hino que eu nunca soube cantar, numa versão adaptada por mim: “Ele me mata, me maltrata, me arrebata. Que emoção no coração. Consagrado no tablado, sempre amado, o mais cotado. Eu teria um desgosto profundo se faltasse o flamenco no mundo. Ele vibra, ele é fibra. Flamenco até morrer eu sou. Uma vez flamenco, sempre flamenco. Flamenco eu sempre hei de ser”.
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Todas as histórias da Espanha reunidas na pensão da tia Pilar

CÁCERES – Bem no meio do caminho entre Madri e Lisboa existe uma cidadezinha espanhola chamada Cáceres, onde estamos agora. Viemos para cá porque em 2011, durante uma caminhada em Machu Picchu, conheci Javier, um geógrafo que na época fazia trabalhos voluntários na Bolívia. Javier é sobrinho de Pilar, uma professora de história aposentada, dona de uma pensão com vista para o centro histórico de Cáceres. A cidade fez parte do Império Romano, foi tomada pelos muçulmanos e, depois, foi reconquistada pelos cristãos, que destruíram as mesquitas e construíram igrejas que estão de pé no mesmo lugar desde o século 12. A sacada do nosso quarto emoldura a igreja, a torre e as muralhas medievais.
Hoje, tia Pilar nos ofereceu um belo almoço em seu apartamento, no segundo andar da pensão que pertence á família desde 1938 – mais ou menos entre o fim da guerra civil espanhola que culminou com a ascenção do ditador Francisco Franco e o início da Segunda Guerra Mundial. Ela nos serviu uma tortilha de bacalhau, “invenção que mistura Espanha e Portugal”, frango ao molho de abacaxi, salada de tomate, queijo de cabra com marmelada, vinho tinto e café. Contou que sua família é originalmente da fronteira entre os dois países e que sua avó só xingava em português. Agora, a família está toda espalhada pela Europa e Estados Unidos. Em Cáceres, ficaram Pilar e Javier, que ajuda a tia na administração da pensão por falta de alternativa melhor.

Javier faz parte das estatísticas que ajudam a entender a atual e persistente crise econômica na Espanha, um buraco em que se meteram também outros países da Europa, como Itália, Grécia e Portugal. Com o diploma universitário na gaveta, ele não encontra emprego na sua área de formação, assim como metade dos jovens qualificados por aqui. Sua esperança é ser chamado para preencher uma vaga concursada como professor de geografia em Melilla. Onde fica isso?, perguntei. Apontando para a África, ele explicou que paga-se muito bem para esta vaga porque ninguém quer ir para lá. 

Melilla é uma cidade espanhola no norte do continente africano, a oito horas de barco a partir de Málaga pelo Mar Mediterrâneo. É um lugar cercado pelo Marrocos, bem africano e bem árabe. O calendário escolar que o futuro professor Javier teria de seguir, por exemplo, respeita a tradição islâmica. É a África dentro da Espanha. Ou vice-versa. Para a Liga Árabe, a União Africana e a Conferência Islâmica, Melilla faz parte do território marroquino, assim como Ceuta, outra cidade da colonização espanhola na África, a trinta minutos de barco cruzando pelo Estreito de Gibraltar. As duas cidades são as únicas fronteiras terrestres entre Europa e África e, por isso, há muros que tentam conter a imigração de africanos que desejam desesperadamente viver a crise econômica.

Se Javier não for convocado em breve para a vaga em Melilla, disse que poderá aceitar uma proposta de trabalho em Curitiba, como representante comercial. O convite a Javier foi feito por um amigo brasileiro, que lhe garantiu a vaga porque além do espanhol, ele fala bem inglês e português. O trabalho não tem nada a ver com sua formação de geógrafo, mas, lhe parece mais interessante a possibilidade de viver no Brasil, onde o desemprego é de 7,4%, do que seguir num país onde 50% dos jovens não têm trabalho.

Mesmo com toda a crise, Pilar e Javier fizeram questão de nos dar de presente a hospedagem na pensão. Pagamos os três um valor simbólico que mal cobriria a despesa de uma diária num dos quartos que ocupamos por duas noites. Nossa casa está sempre aberta para receber os amigos e os amigos dos amigos, disse a tia. Convidada a nos visitar no Brasil, Pilar logo adiantou que esta é uma viagem improvável. Mas, nunca se sabe, emendou. Demos a eles pequenas lembrancinhas do Brasil, um vinho local e nos despedimos com um abraço emocionado. 

  

Apertou a bunda pra dentro, inflou o peito e enfiou a espada no touro

MADRI – Foi um choque. Ninguém nos avisou que ainda se matava touro nas touradas da Espanha. Dos 24 mil espectadores daquela arena, acho que só nós três não sabíamos. Fomos descobrir aos 45 do segundo tempo, quando o bichão já estrebuchava. Com todo fuzuê que as ONGs de proteção animal fazem por aí, protestando contra espora em rodeio, rinha de galo, beagle em laboratório e leão de circo, é inacreditável que ainda se possa botar um touro no meio de 24 mil pessoas e apunhalá-lo aos poucos até que ele não tenha mais forças para ficar em pé. Incrível. Também é incrível como tudo é meticulosamente pensado, desde o bordado nas indumentárias até a afiação da faca para desossar o boi. A tourada é uma baita festa localizada em algum lugar entre o circo, o balé, o matadouro e o açougue.

Tudo na tourada é impressionante. Primeiro, ao som de cornetas, um boi de meia tonelada com a cara preta pega esse menino que tem medo de careta entra na arena todo enérgico, chifrudo e bravo. Uns cinco toureiros aparecem para dar olés no bicho, revezando-se sob os gritos da plateia, até que entram dois cavalos. De olhos vendados com uma faixa preta e protegidos por uma roupa anti-chifres, os cavalos são levados ao centro da arena sem a menor noção do perigo. O cavaleiro, armado com uma lança, atinge o dorso do touro pela primeira vez. Ferido, o touro chifra o cavalo até erguê-lo do chão. Mas, felizmente, o cavalo cegueta não vê nem sente dor. Só aceita os golpes, quieto e obediente.

Saem os cavalos, entram mais dois toureiros, cada um com dois espetos nas mãos. O objetivo é enfiar os espetos no mesmo ferimento causado pelo cavaleiro. Ensanguentado, o boi fica se debatendo, tentando se livrar daquelas varas penduradas em seu dorso. É só aí que entra o toureiro principal, a estrela da vez, que irá enfrentar sozinho a fera ferida. Alguns minutos depois, a impressão que dá é que o toureiro manda no touro. O bicho corre quando o mestre manda, cada vez mais perto e muitas vezes consecutivas. O sangue vermelho que mancha a roupa branca do toureiro me parece mais um charme do que um sinal de perigo. Mas o perigo é evidente.

O momento final é o mais tenso. A arquibancada fica em silêncio. Como numa tacada de sinuca, o toureiro mira o alvo pela ponta oposta da espada, encara o animal de frente, aperta a bunda pra dentro, infla o pulmão e enfia arma no dorso do boi, no mesmíssimo ferimento causado pelos ataques anteriores. Se toda a parte da lâmina tiver desaparecido para dentro do corpo do touro, na mesma hora os espectadores ficam em pé para aplaudir e saudar o vencedor do duelo. Ainda bem que, das seis touradas que assistimos hoje, as seis resultaram na morte do animal, e não do homem. Os seis touros morreram da mesma forma. Primeiro, eles dobraram as patas, como se fossem sentar para dormir, e como faz o gado do agreste nos dias de seca. Em algum lugar da cabeça do toureiro, ele tem certeza que o touro está se ajoelhando em reverência á sua superioridade. Só faltou dar um beijinho no ombro e sair pro abraço.

Para selar a vitória sobre o animal já prostrado com a língua de fora tentando respirar, um homem entra na arena com um punhal e enfia na nuca do touro. É muita frieza. Eu, que nunca fui a um abatedouro, chorei quando vi o primeiro ser morto. A cabeça do bicho tombou na areia de uma só vez. Os touros seguintes, para nossa aflição, pediram mais de uma punhalada. Teve um que até conseguiu se levantar, assustar (e animar) todo mundo, mas depois caiu de novo. Torci muito pelo touro, embora não desejasse o abate de nenhum ser humano. Constatada a morte do boi, a bandinha recomeça a tocar alegremente, numa alegria meio fúnebre, como numa parada militar. Entram três cavalos, o touro morto é amarrado e arrastado pela arena, deixando um rastro de sangue na areia. Acho que vi o bicho morto piscar enquanto era levado para longe dos olhares do público.

Depois de duas horas e meia, enfim, ufa, terminou. Respira. Foi uma sessão de tortura que nos obrigamos a assistir até o final porque o ingresso custou o olho da cara. O último boi morto, o sexto da noite, foi levado para o açougue em frente á arena, onde carniceiros afiavam as facas para desossar o animal. A saída do nosso setor dava exatamente na cara do açougue, e os primeiros touros mortos já posavam sem o couro pendurados num gancho. A carne estava á venda. Quem quisesse poderia levar para casa uma lembrança de seu touro preferido. Um pequeno souvenir para assar, fritar ou fazer na brasa.

A última boda da viagem e o trombadinha fantasma de Barcelona

BARCELONA – Estamos na contagem regressiva. Em menos de um mês, nossa volta ao mundo finalmente termina, depois de 11 meses. Para comemorar a última boda da viagem, este post é uma homenagem ao trombadinha fantasma que surrupiou meu iPhone e meus óculos de sol de dentro da minha bolsa em algum momento provavelmente no metrô de Barcelona, entre o Parque Güell e a Catedral Sagrada Família.

Esta foi a terceira vez em que fomos roubados. As duas vezes anteriores ocorreram dentro de aeroportos, entre o check in das malas e a esteira do desembarque. Na primeira vez, no nosso primeiro dia de viagem, minha caixa de bijus e o canivete do Bernardo sumiram das nossas malas, entre Brasília e Congonhas, num voo da TAM. Na segunda vez, um relógio do Bernardo foi levado de dentro de um bolso com zíper numa parte trancada a cadeado, que foi arrombado, entre Katmandu e Doha, num voo da Catar.

Para celebrar a última boda, portanto, segue o triálogo que se passou ontem entre mim, Bernardo e sua mãe, Rosane, que se juntou a nós para o último mês de mochilão pela Europa.

Nara: Ih, acho que deixei meu óculos cair.

Bernardo: Esse óculos já estava todo remendado, mesmo. Deixa pra lá.

Nara: Ih, acho que levaram meu iPhone.

Bernardo: Hein?! Tem certeza que não está na mochila?!

Nara: Tenho. Roubaram. Junto com o óculos.

Bernardo: Peraí, vamos procurar direito. Tira as coisas da mochila.

Nara: Não adianta. Roubaram.

Rosane: Será que você não deixou em algum lugar? Talvez na lojinha?

Nara: Roubaram, gente.

Bernardo: Não acredito.

Rosane: Não acredito.

Nara: É, roubaram.

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Sital manda “hey” e uma foto do que um dia foi sua casa

AMSTERDAM – Quase um mês depois do terremoto que devastou boa parte do Nepal, nosso guia Sital Dhakal mandou seu primeiro “hey”. Suspiramos aliviados. Na sequência do “hey”, Sital enviou uma foto daquilo que um dia foi sua casa, na região de Gurkha, epicentro do tremor. 

Não restou nada. Não dá nem para saber por onde ele e sua família vão começar a reconstrução. É só escombro, só uma pilha de tijolos.

Eu disse que sentia muito e perguntei como poderia ajudá-lo. Ele pediu dinheiro. Qualquer dinheiro. Qualquer quantia. Tivesse ele pedido um abraço, aí sim seria difícil atendê-lo.

Decidi, então, dar a Sital o dinheiro que economizamos ao ficarmos hospedados na casa do meu amigo Afnán Agramont, um engenheiro boliviano que conheci durante a produção de uma reportagem sobre o rio Madeira, que nasce na parte boliviana da Cordilheira dos Andes.

Afnán está morando aqui na Holanda para fazer um mestrado em gestão de água num programa ligado à ONU. Ele também faz parte da organização Engenheiros Sem Fronteiras e ajuda comunidades andinas a lidar com a escassez de água e com a falta de saneamento básico nas montanhas. 

Como eu escrevi mais de dois mese atrás, no Nepal eu me senti na Bolívia. Nada mais justo do que repassar um favor de um amigo boliviano para um amigo nepalês. Fico feliz de fazer essa ponte.

Fui ao Western Union e descobri que transferências para o Nepal estão isentas de taxas para incentivar doações ao país. É só dar o nome do destinatário, apresentar documentos e dar o dinheiro. Dá para fazer tudo online com cartão de crédito também. Com um código e um documento de identificação, Sital poderá sacar o valor na moeda local, algo em torno de 680 reais.

Não é muito para quem perdeu tudo, mas sei que outros amigos, turistas que ele guiou pelo Himalaia, e amigos desses amigos, também estão ajudando. São essas doações, feitas com muito carinho, que vão pagar a reconstrução da vida de Sital.